quarta-feira, 4 de julho de 2012

Última Primavera



ÚLTIMA PRIMAVERA
Poema de Robindronath Tagore, do seu livro Purobi (1925), dedicado a Victoria Ocampo

 Antes que o dia termine,
consente-me êste desejo:
vamos colhêr
flôres da primavera
pela última vez.
Das muitas primaveras
que ainda visitarão
tua morada,
concede-me uma,
   - implorei.
 Todo êste tempo,
não prestei atenção
às horas,
perdidas e gastas à-toa.
Num lampejo
de um crepúsculo,
li nos teus olhos agora
que meu tempo está próximo
e devo partir.
 Assim, ávido, ansioso,
conto um por um
- como o avarento o seu ouro –
os últimos poucos dias de primavera
que ainda me restam.
Não tenhas mêdo.
Não me demorarei muito
no teu jardim florido,
quando tiver de partir,
no fim do dia.
Não procurarei lágrimas
nos teus olhos
para banhar minhas lembranças
no orvalho da piedade.
  Ah, escuta-me,
não te vás.
O sol ainda não se esconde.
Podemos permitir que o tempo
se prolongue.
Não tenhas mêdo.
Deixa que o sol da tarde
olhe por entre a folhagem
e se detenha um momento
brilhando no mesmo rio
do teu cabelo.
Faze o tímido esquilo,
perto do lago,
fugir de repente
ao estrépito de teu riso
que irrompe
com descuidosa alegria.
Não procurarei
retardar teus rápidos passos,
sussurrando esquecidas lembranças
aos teus ouvidos.
 Segue teu caminho depois,
se teu dever é seguir, se tens de seguir
calcando fôlhas caídas
com teu andar apressado,
enquanto as aves que voltam
povoam o fim do dia
com o clamor de seus gritos.
Na escuridão crescente,
tua distante figura
irá fugindo e apagando-se
como as últimas frágeis notas
do cântico da tarde.
 Na noite escura,
senta-te à tua janela,
que eu passarei pela estrada,
seguindo o meu trajeto,
deixando tudo para trás.
Se te aprouver,
atira-me
as flôres que te dei
pela manhã,
murchas agora ao fim do dia.
Isso vai ser
o último e supremo presente:
tua homenagem
de despedida.


(Nota: Este poema foi traduzido desde o inglês por Cecília Meireles. Robindronath Tagore esteve na casa de Victoria Ocampo em S. Isidro-B. Aires (Argentina), por mais de dois meses a finais de 1924. Entre ambos estabeleceu-se um amor profundo, a pesares da distância em idade. As muitas cartas que entre eles há assim o confirmam).

2 comentários:

  1. Adoro este site... Amei o poema... Muito obrigada por compartilhá-lo... =)

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  2. Amei, postei no face.
    Grata por partilhar.

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