terça-feira, 28 de agosto de 2012

Flor Estrangeira


FLOR ESTRANGEIRA
Poema de Robindronath Tagore, do seu livro Purobi (1925), dedicado a Victoria Ocampo


 Ó flor, flor estrangeira,
quando te perguntei
teu nome,
abanaste a cabeça,
brincando.

E disse comigo:
Que pode haver num nome?
Pelo teu sorriso és conhecida
e somente por êle.

 Ó flor, flor estrangeira,
quando te apertei ao meu coração
e perguntei:
   - Dize-me, onde moras?
Abanaste a cabeça,
brincando.
 - Não sei onde é,
respondeste.

E eu disse comigo:
Era inútil perguntar
de onde vinhas.
Tua casa está
no amoroso coração daquele
que te conhece
e apenas lá.

Ó flor, flor estrangeira,
quando te perguntei, num suspiro:
 - Que idioma falas?
Abanaste a cabeça,
brincando,
enquanto as fôlhas
se punham a murmurar.

 E comigo disse:
Agora sei
que a mensagem do teu perfume
transporta tua esperança sem palavras
e teu talento
é a minha própria vida.

 Ó flor, flor estrangeira,
quando te perguntei,
a primeira vez que vim
de madrugada:
 - Sabes quem sou?
Abanaste a cabeça,
brincando.

 E disse comigo:
Não tem grande importância.
Se soubesses
que meu coração fica
cheio de alegria
perto de ti,
então, ninguém me conheceria melhor,
ó flor, flor estrangeira.

Ó flor, flor estrangeira,
quando te perguntei:
 - Algum dia me esquecerás?
Abanaste a cabeça,
brincando.

 E senti no meu coração
que me recordarias
muitas e muitas vezes,
quando eu te deixasse
por uma outra terra.
A distância virá
aproximar-nos
em sonho
e não me hás de esquecer
nunca mais.

(Nota: Este poema foi traduzido desde o inglês por Cecília Meireles. Robindronath Tagore esteve na casa de Victoria Ocampo em S. Isidro-B. Aires (Argentina), por mais de dois  meses a finais de 1924. Entre ambos estabeleceu-se um amor profundo, a pesares da distância em idade. As muitas cartas que entre eles há assim o confirmam).

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Última Primavera



ÚLTIMA PRIMAVERA
Poema de Robindronath Tagore, do seu livro Purobi (1925), dedicado a Victoria Ocampo

 Antes que o dia termine,
consente-me êste desejo:
vamos colhêr
flôres da primavera
pela última vez.
Das muitas primaveras
que ainda visitarão
tua morada,
concede-me uma,
   - implorei.
 Todo êste tempo,
não prestei atenção
às horas,
perdidas e gastas à-toa.
Num lampejo
de um crepúsculo,
li nos teus olhos agora
que meu tempo está próximo
e devo partir.
 Assim, ávido, ansioso,
conto um por um
- como o avarento o seu ouro –
os últimos poucos dias de primavera
que ainda me restam.
Não tenhas mêdo.
Não me demorarei muito
no teu jardim florido,
quando tiver de partir,
no fim do dia.
Não procurarei lágrimas
nos teus olhos
para banhar minhas lembranças
no orvalho da piedade.
  Ah, escuta-me,
não te vás.
O sol ainda não se esconde.
Podemos permitir que o tempo
se prolongue.
Não tenhas mêdo.
Deixa que o sol da tarde
olhe por entre a folhagem
e se detenha um momento
brilhando no mesmo rio
do teu cabelo.
Faze o tímido esquilo,
perto do lago,
fugir de repente
ao estrépito de teu riso
que irrompe
com descuidosa alegria.
Não procurarei
retardar teus rápidos passos,
sussurrando esquecidas lembranças
aos teus ouvidos.
 Segue teu caminho depois,
se teu dever é seguir, se tens de seguir
calcando fôlhas caídas
com teu andar apressado,
enquanto as aves que voltam
povoam o fim do dia
com o clamor de seus gritos.
Na escuridão crescente,
tua distante figura
irá fugindo e apagando-se
como as últimas frágeis notas
do cântico da tarde.
 Na noite escura,
senta-te à tua janela,
que eu passarei pela estrada,
seguindo o meu trajeto,
deixando tudo para trás.
Se te aprouver,
atira-me
as flôres que te dei
pela manhã,
murchas agora ao fim do dia.
Isso vai ser
o último e supremo presente:
tua homenagem
de despedida.


(Nota: Este poema foi traduzido desde o inglês por Cecília Meireles. Robindronath Tagore esteve na casa de Victoria Ocampo em S. Isidro-B. Aires (Argentina), por mais de dois meses a finais de 1924. Entre ambos estabeleceu-se um amor profundo, a pesares da distância em idade. As muitas cartas que entre eles há assim o confirmam).

segunda-feira, 2 de julho de 2012

A Minha Canção


A MINHA CANÇÃO
por Robindronath Tagore
(do livro A Lua Crescente ou Nova)


Esta minha canção enleará sua música em torno de ti, meu filhinho, como os braços apaixonados do amor.
Esta minha canção tocar-te-á a fronte como um beijo de bênção.
Quando estiveres sozinho, ela se assentará ao teu lado e segredará ao teu ouvido; quando estiveres no meio da multidão, criará uma barreira de distância em torno de ti.
A minha canção será como um par de asas para os teus sonhos.
Transportará teu coração às bordas do desconhecido.
Será como a estrela fiel lá em cima, quando a noite escura tombar sobre a tua estrada.
A minha canção pousará nas pupilas de teus olhos e levará a tua vista até o coração das coisas.
E quando a minha voz emudecer, a minha canção falará no teu coração vivo.



Nota : Este poema pertence ao formoso livro de Tagore Sissu (A lua Crescente),  escrito por Robindronath em homenagem à sua esposa Mrinalini e às suas crianças Rothi e Bela.